Eles estão entre nós

Deuses Americanos” faz parte do rol de livros que ajudam a explicar o espírito dos nossos tempos. Nas palavras do próprio Gaiman, a obra pode ser descrita, em essência, como uma “história sobre imigrantes e imigração”. Sua premissa é fascinante: será que os emigrantes do Velho Mundo, ao abandonar seus países natais rumo a um recomeço nos Estados Unidos, traziam seus deuses consigo? Ou estes pereceriam por falta daqueles que acreditassem neles? Afinal, em uma terra nova e distante, com outro sistema de crenças, seria natural que as pessoas passassem a dedicar cada vez menos tempo para as divindades que se acostumaram a cultuar. Surgiriam outros interesses e a vida continuaria a seguir seu caminho.

Ocorre que os deuses antigos, vindos de panteões diversos como o egípcio, o eslavo e o nórdico, vagavam enfraquecidos pelo interior dos Estados Unidos. Tinham sido substituídos, nos corações e mentes dos habitantes do país, por divindades contemporâneas como a Mídia, a Tecnologia e o Mercado – “entidades” para as quais os indivíduos devotavam cada vez mais horas de seus dias. Sentar-se por uma tarde inteira em frente à televisão não seria, afinal, uma forma de adoração? Vale lembrar que o livro foi lançado em meados dos anos 90 e não leva em consideração novíssimas manifestações do “divino”, como os smartphones e a Internet. É possível que estas sejam retratadas na série inspirada na obra.

A trama contempla uma análise profunda da cultura americana, e várias de suas passagens têm como cenários locações existentes. Neil Gaiman faz da fronteira entre o real e o surreal uma linha bastante tênue, e torna verossímil a possibilidade de deuses como Odin viverem em nosso cotidiano por baixo de codinomes insuspeitos. Mal sabem aqueles à sua volta que tanto o senhor de Asgard quanto outros seres atemporais buscam recuperar a força de outrora, nem que para isso seja necessário confrontar as deidades modernas.

Apesar de dividir os fãs de Neil Gaiman, “Deuses Americanos” deve ser lido e assistido. “Em que devo acreditar?”, pergunta, em certo ponto, um dos personagens. O homem-búfalo ruge a resposta: “em tudo”.