A princesa de Themyscira é impetuosa desde criança. Quer lutar e aprender tudo o que uma amazona deve saber. Seu coração é bom e seus propósitos, sempre voltados para o bem-estar alheio. Inocente, ela crê que está em suas mãos salvar a humanidade, de sua sede por guerra, e então abandona seu conforto na ilha em que nasceu e se aventura pela terra – de ninguém – dos humanos.

 

Em “Mulher Maravilha” (Wonder Woman, 2017), produção da DC Comics e Warner, dirigido por Patty Jenkins (Monster: Desejo Assassino, 2003) a origem da heroína, que compõe a Liga da Justiça, interpretada por Gal Gadot, é contada. Conhecemos sua infância na Ilha de Themyscira, acompanhando seu crescimento e treino com sua tia, a General Antiope (Robin Wright), suas dúvidas e curiosidades pelos segredos do mundo e sua relação com a rainha, sua mãe, Hyppolyta (Connie Nielsen). A descoberta da força de seu poder, coincide com a chegada do soldado britânico Steven Trevor (Cris Pine), espião britânico infiltrado no exército nazista, em busca de segredos, que podem mudar o rumo da guerra. Esse contato culmina na necessidade de Diana, de sair de sua terra e salvar a humanidade dos males provocados pela influência de Ares. Assim, a heroína conhece “este lado do planeta” e com a ajuda do soldado, investiga o paradeiro do deus da guerra para lhe destruir com a espada “Matadora de Deuses”.

 

 

Os desenvolvedores do filme não se arriscaram muito e o que recebemos é semelhante ao longa “Homem de Aço” (Man Of Steel, 2013), uma história que retoma a origem de um super-herói conhecido, o apresentando ao público que o desconhece. A linearidade da narrativa é positiva, pois amarra os fatos com precisão sem que pontas fiquem soltas e de brecha para possíveis falhas. A duração do filme foi algo que me incomodou. Senti que 2 h e 21 min foi tempo demais para desenvolver uma história simples e bem-apresentada no quesito ação; poderiam encurtar cerca de meia hora do filme que não prejudicaria seu andamento. As sequências de lutas são marcadas por piruetas e câmeras lentas, que exibem em todos os ângulos possíveis os gestos de quem as pratica. A construção dos ambientes é demarcada por fotografia com tons distintos – a ilha é viçosa, aconchegante, sempre marcada pelo brilho do metal dourado ou do sol refletido na areia; enquanto a guerra é cinza, poluída, fria e intimista. Os efeitos especiais estão presentes até na respiração dos atores, ok, estou exagerando, engrandecendo toda tomada em que é preciso um salto circense ou uma explosão barulhenta.

 

 

As personagens funcionam entre si, cada uma desempenhando seu papel. Gal Gadot precisará em breve de um plus na interpretação, pois sua simplicidade em atuar é mais visível, já que nesse filme o foco é todo nela. A imaturidade da sua representação cai bem com a imaturidade de Diana, que é alheia a maneira como a vida funciona além de seu refúgio em Themyscira, porém, a medida que a personagem cresce e se atém a realidade da vida humana, precisamos de mais que um biquinho e um olho semicerrado. Mesmo com isso, não se pode negligenciar como a atriz se dá bem com as câmeras, ela é absolutamente linda e os closes em seus rosto evidenciam isso. O núcleo da ilha, retrata diversas amazonas – guerreiras em uma sociedade feita por e para mulheres – cada uma com sua particularidade e força. Antiope e Hyppolita são os dois marcos desse ambiente exalando poder e beleza. Nessa primeira parte, devemos dar atenção à sequência em que a rainha narra a pequena Diana a guerra contra Ares, exibida em forma de animação, que se assemelha ao produto obtido da técnica das pinturas a óleo.

 

No núcleo da cidade/guerra além do soldado de Cris Pine temos sua secretária, engraçada e fofa, interpretada pela atriz Lucy Davis (Todo Mundo Quase Morto, 2004); seu superior Sir Patrick (David Thewlis, Professor Lupin da saga Harry Potter); os vilões nazistas Maru (Elena Anaya) e General Ludendorff (Danny Huston), caricatos de dar dó; e o trio Ewen Bremner (Charlie), Saïd Tagmaoui (Sameer) e Eugene Brave Rock (Chief) que são tão carismáticos que roubam a atenção.

 

 

O filme é uma boa para quem já observa o cenário dos filmes de super-herói, e estava com medo de se deparar com uma bomba. Entretém e agrada além do que esperava. Fala sobre uma mulher a frente de situações tidas como masculinas de maneira suave, com algumas piadinhas para evitar qualquer possível atrito e tirar a ideia de panfletagem, dando um tapa de luva suave em aspectos machistas que permeia a trama. Mantém o padrão de qualidade dos grandes lançamentos DC dos últimos anos (“Homem de Aço” e “BvsS”) e deixa o terreno preparado para o “Liga da Justiça”. Peca em sua metragem, na falta de sangue – como em uma guerra não tem sangue, não consigo lidar com isso – e em fazer algumas cenas parecerem um ensaio da Annie Leibovitz para a Vogue.

 

Ainda assim, um bom programa para se ver no cinema, de preferência em IMAX para desfrutar do som e da imagem em sua melhor qualidade.

 

Nota: 4/5