Nome do livro: Alerta de Risco – Contos e Perturbações
Autor(a): Neil Gaiman
Editora: Intrínseca
Páginas: 304
Ano: 2015
Nota: 5/5

É com palavras assim que Neil Gaiman apresenta Alerta de risco, uma rica coletânea de histórias de terror e de fantasmas, ficção científica e conto de fadas, fábula e poesia que exploram o poder da imaginação.
Em “História de aventura”, Gaiman pondera sobre a morte e sobre como, ao morrer, as pessoas levam consigo suas histórias. No suspense “Caso de morte e mel”, ele nos presenteia com sua versão do mundo de Sherlock Holmes. Em “A Bela e a Adormecida”, duas conhecidas personagens de contos de fadas têm suas histórias entrelaçadas em uma releitura bastante original. “Hora nenhuma” é um conto muito especial sobre Doctor Who, escrita para o quinquagésimo aniversário da série de tevê, em 2013. E há também um conto escrito exclusivamente para esta coletânea: “Cão negro”, que revisita o mundo de Deuses americanos ao narrar um episódio que envolve Shadow Moon em um bar durante seu retorno aos Estados Unidos.
Um escritor sofisticado cujo gênio criativo não tem paralelos, Gaiman hipnotiza com sua alquimia literária e nos transporta para as profundezas de uma terra desconhecida em que o fantástico se torna real e o cotidiano resplandece. Repleto de estranheza e terror, surpresa e diversão, Alerta de risco é um tesouro que conquista a mente e agita o coração do leitor.

Há que se respeitar os bons contistas. A capacidade imaginativa e de síntese desses autores, aliada a uma seleção criteriosa de palavras, muitas vezes resulta em histórias curtas porém arrebatadoras. Nesse sentido, não é exagero afirmar que Neil Gaiman está entre os grandes do nosso tempo. Como disseram Hank Wagner, Christopher Golden e Stephen R. Bissette, responsáveis por “Príncipe de Histórias: Os Vários Mundos de Neil Gaiman” (Geração Editorial, 2011): “A maioria de seus contos são gemas perfeitamente lapidadas, raramente com uma palavra desperdiçada”. Essa sensação é apenas uma das provocadas por “Alerta de Risco”, uma coletânea de textos que podem vir até a perturbar um leitor desavisado. Na introdução, o próprio Gaiman antecipa: “aqui, você vai encontrar morte e dor, lágrimas e desconforto, violência de todos os tipos, crueldade e até abuso”. Dor, desconforto e abuso?, você pode pensar; em alguns trechos sim, como no premiado “A verdade é uma caverna nas Montanhas Negras”. Mas há também histórias divertidas, capazes de extrair um sorriso de satisfação, como é o caso de algumas das doze que compõem “Calendário de Contos”. É difícil ficar indiferente, especialmente porque os finais são repletos de surpresas.

Às vezes bastam três páginas, como em “Às profundezas de um mar sem sol”, para que percamos o rumo de casa. Há histórias que, por sua vez, são mais longas e não cumprem plenamente essa expectativa, como “Cassandra”. Essa pode não ter sido a minha preferida, mas está longe de ser ruim. A graça de “Alerta de Risco” é que o leitor nunca sabe direito o que esperar após virar uma página, pois cada conto foi elaborados com um propósito específico: “História de Aventura” foi um pedido para um programa de rádio, “Jerusalém” foi encomendado pela BBC para a William Blake Week e “Hora Nenhuma” foi uma colaboração para um livro sobre Doctor Who. Ah, e tem ainda “Cão Negro”, ambientado no universo de “Deuses Americanos”, um prato cheio para quem está lendo o romance e/ou acompanhando a série de TV. No final, é difícil dizer se o que acabamos de ler foi um conto, uma perturbação, ou uma mistura dos dois.

Gosto muito de short stories e algumas das que compõem este livro já se tornaram minhas favoritas. Ao contrário de “Belas Maldições”, escrito por Gaiman em colaboração com Terry Pratchett e recentemente resenhado aqui, “Alerta de Risco” é Gaiman puro, 100% concentrado, para se tomar em pequenas doses. Ele mesmo diz que contos “são os espaços em que [pode] alçar voo, experimentar, brincar (…), cometer erros e embarcar em pequenas aventuras”, e imagino que o melhor a ser feito é simplesmente ignorar o alerta e correr o risco. Vale a pena! Recomendo muito e lerei novamente.