O adulto em que nos transformamos é um produto das relações que vivemos em nossa vida, do que passamos em nossos caminhos e dos valores construídos  partir disso. A oportunidade de reviver suas histórias e delas retirar informações é catártico, coloca pra fora dores e alegrias, há tanto guardadas e nos obriga a repensar se certos sentimentos há muito ignorados, devem ficar escondidos ou trazidos a tona. Quando Jeannette Walls escreve sua autobiografia , “Castelo de Vidro”, contando assim, a todos, a complexa vivência entre os membros de sua família, ela optar por tirar o véu que cobre essa realidade triste, de se crescer em uma família repleta de problemas.

Na adaptação da biografia para o cinema ( The Glass Castle, 2017, direção de Destin Daniel Creton), a autora é interpretada por Brie Larson (O Quarto de Jack, 2016), uma jovem jornalista, que mora em Nova Iorque e precisa lidar com seus pais, um casal complicado, composto por uma artista excêntrica e um alcoólatra. Marcados por uma vida irregular e precária, eles mora em um prédio abandonado e têm dificuldade em aceitar as escolhas que a filha fez para sua vida. Por meio de flashbacks somos levados a reviver da infância ao início da vida adulta de Jeannette e de seu irmão e irmãs, acompanhando momentos ora de alegria e descontração, ora de tensão e tristeza.

 

 

O pai de Jannette (Woody Harrelson) é um homem que oscila entre o pai afetuoso e o alcoólatra destemperado. O que transparece no relato da autora é que-  como já foi retratado em outros filmes que trataram do tema alcoolismo – os períodos em que o pai se encontra em abstinência, são os melhores de sua vida. Porém, esses são raros momentos e, no dia-a-dia, aquelas crianças precisaram passar por situações de angústia, diante das consequências dessa doença. Somando isso a uma mãe apática e omissa (Naomi Watts), por acomodar e não conseguir se livrar dessa relação doentia, a família desarticulada está completa.

Um relato mais que honesto de alguém que presenciou a decadência humana e ficou marcada física e psicologicamente por isso. Em alguns momentos, associei a idealização que a personagem do pai tem, com relação a manter as crianças longe do sistema de ensino, ou de questionar o tempo inteiro as estruturas sociopolíticas, me fizeram pensar em “Capitão Fantástico” (Capitain Fantastic, 2016), representado em uma esfera menos utópica e mais triste.

 

O filme fala de perdão. Do pensar de Jeannette e de sua superação aos maltratos sofridos durante grande parte da vida. É sobre entender que desculpar não é o mesmo que aceitar, ou se calar, e sim, um alívio àqueles monstros que persistem em te assombrar e enfraquecer sua perspectiva de felicidade. É sobre guardar os melhores momentos com carinho e aprender com os piores. É uma narrativa sobre responsabilidade e amadurecimento. Uma afirmação de que apesar das dificuldades podemos ser felizes.

Nota 4/5