Trinta anos após os acontecimentos do primeiro filme, a humanidade está novamente ameaçada, e dessa vez o perigo pode ser ainda maior. Isso porque o novato policial K (Ryan Gosling) desenterrou um terrível segredo que tem o potencial de mergulhar a sociedade no completo caos. A descoberta acaba levando-o a uma busca frenética por Rick Deckard (Harrison Ford), desaparecido há 30 anos.

Nada como um dia cinza e quase chuvoso para assistir “Blade Runner 2049”. Começarei meu texto pelas memórias que tenho do primeiro filme “Blade Runner, o Caçador de Andróides” (Blade Runner, 1982), dirigido por Ridley Scott (“Alien”, “Gladiador”). Esse filme faz parte da minha infância, sim da minha infância você não leu errado. Quando criança a minha Netflix se chamava locadora de vídeos. Nela alugávamos fitas VHS e se não a rebobinássemos, pagávamos uma multa. Não sei se foram meus pais que escolherem esse filme ou se o balconista indicou, mas o fato é que essa obra-prima veio parar aqui em casa.

Quando assisti ao filme clássico, o que mais me chamou atenção foi o visual da película, seus elementos plásticos (cor, texturas, figurino, fotografia, etc.) reforçando a ideia de um futuro apocalíptico totalmente escuro sem a presença do sol, no qual os dias se mostram chuvosos e cinzas; uma terra superpopulosa e poluída; contando também com o alto desenvolvimento tecnológico e, um ar retrô, neo noir cyberpunk, já que o filme foi produzido em 1982 e não se caracteriza de acordo com os estilos da época.

Blade Runner, o Caçador de Andróides” se passa no século XXI onde a Tyrelll Corporation desenvolve clones humanos para serem usados como escravos em colônias fora da Terra, identificados como replicantes. Em 2019, o ex-policial Rick Deckard é acionado para caçar um grupo fugitivo vivendo disfarçado em Los Angeles.

Naquela época pouco me importavam às questões filosofais e existências sobre vida, sentimentos e a influências de grandes corporações que a película abordava, mas a dualidade dos personagens me chamava atenção. Rick é um herói, ou anti-herói, de moral duvidosa e Roy Batty (Rutger Hauer) é o vilão mais humano e emotivo que eu conheça. Essa dubiedade dos personagens é uma das características dos filmes de gênero noir, e aqui, Scott o une a ficção científica, obtendo um resultado primoroso no desenvolvimento de sua trama.

Foi nessa atmosfera de um dia cinza e quase chuvoso, semelhante ao prelúdio dos anos 80, que assisti a “Blade Runner 2049”, dirigido por Denis Villeneuve (“Incêndios”, “A Chegada”) e, produzido por Ridley Scott. Nessa continuação ambientada 30 após os ocorridos no primeiro filme, vemos uma Los Angeles mais tóxica e congestionada. A Tyrelll Corporation, em decadência faliu e seu espólio comprado pela Wallace Corporation, empresa responsável por erradicar a fome com alimentes geneticamente modificados (isso é bem atual) e reprogramar/produzir os replicantes, tornando-os mais dóceis.

Nesse contexto somos apresentados ao oficial K (seria essa letra como nome, uma referência a barata de Kafka?), interpretado por Ryan Gosling, que está à caça de replicantes Nexus 8, renegados de estilo antigo, para serem “aposentados” e substituídos por modelos da série Nexus 9, mais fáceis de controlar. Em princípio, ele rastreia um desses replicantes, Sapper (Dave Bautista), um “fazendeiro de proteínas” recluso, que diz ter presenciado um milagre e que se recusa a ser “aposentado”.

Após o encontro com Sapper, K inicia sua saga, em buscas de resposta para a sua origem e para o universo que se apresenta a sua volta. Por meio das indagações da personagem, o filme nos apresenta um tratado sobre a memória e o que nos faz humano. No segundo ato do filme, a cor laranja e a poeira são utilizadas para nos remeter a ideia de memória e enfatizar a importância da mesma. Os elementos plásticos que tanto me fascinaram na infância permaneceram e foram revisitados e repaginados. O futuro apocalíptico também se faz presente e, acredito, dessa vez consegue ser mais desolador e assustador que o primeiro filme.

Continuação mais que aguardada, Blade Runner 2049 é uma surpresa agradável, digna de lágrimas nos olhos do espectador, percebidas quando as luzes do cinema se acendem. Esta obra do cinema de ficção-científica tem vida própria e nada impede que você o assista sem o conhecimento prévio de Blade Runner de 82. Porém, considero mais enriquecedor quando os assistimos na sequência.

Apenas uma coisa me desapontou: na realidade, ainda não temos carros que voadores.

Nota:5/5

Tatiane Barroso:  Jornalista de formação Cinéfila por vocação. Gosto de gente, bicho e planta, não necessariamente nesse ordem. Alucinada pela cultura Japonesa. Acredita que não existam filmes ruins, mas sim dias ruins para assistir determinados filmes.