Ilustração de Patrick Leger sobre o filme

 

O Plano de Constantine Nikas (Robert Pettinson) era assaltar um banco e descolar uma boa quantia em dinheiro, mais nada sai com o planejado e seu irmão mais novo acaba sendo preso. Decidido a resgatá-lo Constantine embarca em uma perigosa corrida contra o relógio, onde ele mesmo é o próximo alvo da polícia.

 

Todas as possibilidades de um ser humano ‘fazer merda’ são vistas em Bom Comportamento (Good Time). É um filme carregadíssimo e isso pode ser motivo para não gostar dele. Não se engane, é obra relevante. Merecida indicação a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017.

Dirigido pelos irmãos Safdie, diga-se, Ben Safdie e Joshua Safdie. São pessoas relevantes no cinema independente americano, se é que existe mesmo esse gênero por lá. O primeiro irmão atua com o astro Robert Pattinson que está muito forte no filme.

 

 

Essa história de dois irmãos que se encrencam no mundo do crime, onde a violência, mentira e aproveitamento pessoal são exibidos abertamente, na realidade deixa muito claro o alcance que a obsessão pode ir. No caso, obsessão de um irmão com o outro.

Connie (Robert Parttinson) é totalmente desajustado, rouba o que pode e engana seja qual for a namorada. Sua única e exclusiva preocupação é com o irmão Nick (Ben Safdie) que não responde totalmente por si devido a dificuldade de aprendizado e na fala.

 

 

Fica óbvio que Connie não deveria envolver o irmão nos seus crimes, mas isso é apenas a exteriorização da suposta cumplicidade de ambos. Opa, suposta? Exatamente, com o decorrer da trama percebemos que há um constante equivoco naquela relação. Connie não tem capacidade de cuidar do irmão mais vulnerável, e ambos compartilham dependência afetiva. Assim, um faz escolhas erradas e o outro acaba sofrendo as consequências. Porém, quando a história encontra um desfecho podemos entender que aquilo tudo não é um equivoco em si, mas resultado de uma devoção onde esconde um amor singular.

Essa dinâmica da vida de irmão pautada em uma vida perigosa soa como algo gratuito e repetitivo na cinematografia já vista em verdadeiros clássicos de diferentes nacionalidades. Paralelamente, o filme pode ficar ainda menor quando analisado a frio o tipo de imagem (fotografia) que os diretores nos entregam, totalmente pautada em cores fortes mas que parece sem a preocupação em mostrar algo “bonito”. Vermelhos sobressaltados e feios, tudo muito forte, mas desprovido de vivacidade numa contradição que fica interessante. Ou seja, tudo é fiel ao enredo. Mas por favor, isso acaba não sendo tão importante. O que realmente vale é a experiência do conjunto da obra.

 

 

E é justamente nesse ponto que todos esses aspectos de fotografia e edição recebem ressignificação, principalmente através da interpretação de Robert Parttinson. Connie segura a trama com sua impetuosidade. É agoniante testemunhar sua agenda ladeira abaixo. Fica claro que ele não conseguirá contornar o caos. É provável que devido ao carinho com o irmão você sinta até uma certa pena e comece a torcer por esse anti-herói que se apresenta bem diferente do bonitão (sonso) vampiro da interminável saga Crepúsculo.

Tenho que respeitar que o moço merece os louros do sucesso e cada vez mais se destaca como ator engajado, escolhendo papeis que exploram sua capacidade de se opor aos personagens já defendidos. Nesse caso, Connie é muito diferente do personagem defendido por Parttinson no incrível e difícil “Cosmopolis” de David Cronenberg. Em “Bom Comportamento” é bem pensado a escolha dos diretores em distancia-lo da imagem do galã. Ele está feio e funciona! É valido também o enredo ser previsível e retratado com crueza, mas que encontra na atuação de todos os atores, um lugar comum próximo a nós. Essa aproximação nos incomoda, porque naturalmente faz parte de nossas vidas o jogo de interesses das relações e a violência que parasita primeiro nossas mentes.

 

 

“Bom Comportamento” encontra um desfecho bem comum, mas preste atenção nessas cenas finais. Como mencionado, o roteiro é simples, previsível sem a preocupação com as reviravoltas e surpresas o que não compromete a experiência. Pare de se preocupar com dados tão técnicos. Se entregue a experiência audiovisual, pois é exatamente o que propõe os diretores: uma reflexão final visual. Vemos o filme encerrar a história dos irmãos com esperança e nesse sentimento os créditos são exibidos, mas o filme continua reproduzindo a vida. E para apunhalar mais nossos corações uma marcante música é tocada: “The Pure and the Damned”, de Oneohtrix Point Never, com Iggy Pop. Especialmente para o filme. Procure nos aplicativos de música, recomendo. Aliás, a trilha sonora toda é perfeita.

 

Nota: 4/5