O Formidável : Poster

 

Após terminar seu longo e famoso relacionamento com a sua musa Anna Karina e em meio à fase revolucionária de sua carreira, o célebre diretor e escritor Jean-Luc Godard (Louis Garrel) inicia a produção de seu mais novo filme: A Chinesa, longa que narra a história de um grupo de jovens que tentam incorporar princípios maoístas ao seu cotidiano político. Durante as filmagens, ele conhece Anne Wiazemsky (Stacy Martin) e, logo, os dois se apaixonam.

 

 

Jean-Luc Godard é um dos grandes mestres do cinema ainda vivo. Não só fez filmes relevantes como participou como um dos principais nomes do movimento de renovação do cinema francês na década de 60, a Nouvelle Vague, que influenciou a sétima arte no mundo todo. Sim, é muita coisa. E por incrível que pareça tudo isso concorre, mistura ou perde com a fortíssima personalidade do homem Godard. Traçar um perfil dessa persona complexa não é nada fácil. Mais difícil ainda, dizem os ingratos, é entender seus filmes (risos). Diante dessa apresentação pergunto: quem é o corajoso que teve a “audácia” de fazer um filme sobre ele?

Fica claro que Michel Hazanavicius é admirador do mestre do cinema devido suas escolhas narrativas na direção de “O Formidável”. Ele foi esperto ao escolher um capitulo da vida do artista para traçar de certa forma uma característica geral de sua personalidade. Escalou Louis Garrel, que nos entrega resultado interessante e mais humano, demonstrando algumas das fraquezas, inseguranças e medos de um artista do cinema dificílimo de conviver e entender. Você pode nunca ter ouvido falar ou conhecer profundamente Godard que no mínimo se sensibilizará com o jovem apresentado por Garrel.

 

O Formidável : Foto Louis Garrel, Stacy Martin

 

Como a trama foi baseada nas memórias da esposa de Godard no curto período de tempo do matrimônio, foi possível construir uma história curta, afastando aquelas epopeias enfastiadas nas quais se transformam algumas cinebiografias. O que realmente é explorado são dois pontos: o mundo complexo da personalidade do homem Godard e o processo de ruptura dele com o cinema que defendia anteriormente.

Quando penso em Jean-Luc Godard fica bem difícil supor como de fato ele seria. Só consigo imaginar o artista politico e filosofo extremamente critico que é. Em “O Formidável” é possível rir da ingenuidade daquele que se diz tão contra a burguesia, mas que não sabe o que significa a resenha “acordar cedo, pegar lotação, trabalhar como louco e voltar pra dormir e acordar em seguida”. Mas tudo bem, de sua zona de conforto manifestava-se como poucos.

 

O Formidável : Foto Louis Garrel, Stacy Martin

 

No Godard do filme, atrás do óculos com lente mais escura, conseguimos ver não somente seus olhinhos sérios e severos, mas também aquela insegurança artística típica que alcançava outros departamentos de sua cabeça, percebemos aquele ciúme pela esposa manifestado por uma rispidez capaz de dar a volta em toda a França e atingir qualquer ser humano que pare para escutá-lo, e para sorte ou azar de muitos, Godard tinha plateia. Muitos queriam saber o que pensava. Só que o tempo mental dele é naturalmente diferente do nosso. O público ainda digeria aquele cinema novo, de uma nova onda, enquanto Godard percebia que aquela manifestação artística também era um erro. Poderia ser um erro. Nouvelle Vague é uma das maravilhas da história do cinema.

Entenda que o cinema daquela época na França assumia um papel muitíssimo forte. Existia o interesse genuíno do povo pelo cinema. Era muito forte e talvez por isso a Nouvelle Vague realmente represente uma nova onda social. E o jovem Godard, influenciado pelo pensamento socialista que vinha a muito tempo sendo construído e materializado, seduzido por um cinema russo altamente político e fortíssimo, também queria beber dessas águas. Por isso ele não queria mais saber de contar uma história romântica burguesa. Ele queria incendiar, manifestar, documentar realidade, romper com o padrão social. Isso naturalmente é difícil de conviver. Parabéns ao ator que consegue explorar esse dilema pessoal. Godard de Garrel fica tão próximo de nós que incomoda sua infantilidade. Sério, lembro que pensei: putz, um gênio tão criança assim?

 

O Formidável : Foto Stacy Martin

 

Mas tudo bem, vamos considerar que essa descida do olimpo é importante. Ora essa, Godard é gente como a gente! Perceba que o filme é todo ele, e nada mais que ele merece o destaque aqui. Vá com fé que não fica cansativo, até porque nesse ponto entra o mérito do diretor. Ele se apropria claramente de estilos de Godard e o filme é contado usando artifícios que exaltam a própria dor do jovem que já tinha se encontrado, mas não sabia. Aliás, preste atenção na cena em que após um discurso em palestra, Godard sai abatido e faz sutil crítica de si demonstrando que está além do seu tempo.

Fato interessante é que a trama do filme é pautada na comedia. Longe de ser gratuito, representa como diz Hazanavicius, aquele afastamento necessário que devemos ter de algo para entender melhor a situação. E funciona muito bem. Não só por Godard se manifestar sério demais, mas nada mais justo apresentar de forma desconstruída o homem que desconstruiu o cinema de uma época. Jean-Luc Godard, aquele que desconstrói por natureza.

O Formidável : Foto Bérénice Bejo

Nota: 4/5