A ocorrência cada vez mais frequente de eventos climáticos capazes de ameaçar a existência da humanidade faz com que seja criada uma extensa rede de satélites, ao redor de todo o planeta, de forma a controlar o próprio clima. Apelidado de “Danny Boy”, este sistema construído a partir da cooperação de 17 países é coordenado pelo engenheiro Jake Lawson (Gerard Butler). Após anos de dedicação, ele é afastado da função devido a questões políticas e, em seu lugar, é nomeado seu irmão caçula, Max (Jim Sturgess). Três anos depois, quando a coordenação do “Danny Boy” está prestes a ser transferida dos Estados Unidos para a ONU, falhas pontuais provocam uma forte nevasca em pleno deserto no Afeganistão e altíssimas temperaturas em Hong Kong, que matam centenas de pessoas. Jake é então convocado para descobrir o que está acontecendo e, enviado para a estação internacional, desvenda uma imensa conspiração ao mesmo tempo em que precisa deixar para trás os atritos existentes com Max.

 

Considerando os filmes que tenho como favoritos na minha carreira de crítica amadora de cinema, é um tanto contraditório e surpreendente o fato de eu gostar tanto do gênero “Catástofre”. Esses filmes normalmente apresentam coisas que eu rejeito fortemente: enredo falho, erros de continuidade, maniqueísmo distorcido, a figura do homem (sempre um homem) americano (sempre um americano) que salva o planeta da destruição total, e apesar das inúmeras perdas, sua família sai intacta da destruição.

 

Tempestade: Planeta em Fúria : Foto

 

Apesar disso tudo, eu sou uma das maiores fãs do gênero que vocês vão encontrar nas salas de cinema (e no sofá da sala) pelo mundo afora. O exato por quê eu ainda não sei, mas tenho uma forte suspeita: esses filmes são muito divertidos, o tempo passa rápido, tem cenas incrivelmente hilárias de tão estúpidas que são, e muitas vezes tem um humor bem agradável. O fato é que se você quer diversão descompromissada, eles te garantem, normalmente com efeitos visuais afiados, heróis que garantem a bilheteria e uma leve lição de moral para você não se sentir tão mal por ter visto um filme que jamais passaria num circuito de arte.

Por todas essas razões, assim que vi o trailer da nova produção hollywoodiana do Cinema Catástrofe, sabia que minha audiência era garantida. Além do mais, a presença do agora estabelecido ator Gerard Butler – anti-herói durão – irlandês bonitão – rei do entretenimento de ação (que desde “O Fantasma da Ópera”- sim, um MUSICAL – aparentemente se recusa a fazer filmes que o desafie como ator, mas sim que encham seu bol$o), me mostrou que este seria um filme com algo relacionado a resgate, corrida contra o tempo, e um personagem durão que ao longo da história vai eliminando suas proteções emocionais.

 

Tempestade: Planeta em Fúria : Foto Abbie Cornish

 

Eu não estava errada: foi o que eu imaginava e foi o que o filme me entregou. O personagem de Butler, junto com seu irmão e uma equipe de cientistas multicultural e internacional, deve desvendar o mistério envolvendo as recentes falhas da Estação Espacial responsável por monitorar as alterações climáticas da terra e corrigir potenciais desastres que custem a vida de milhares de pessoas em todo o mundo. Essas falhas ao longo do filme devastam localidades como Afeganistão, Hong Kong e até mesmo nosso Rio de Janeiro, vítima de uma frente congelante que acaba com o dia dos banhistas de Copacabana (e, para ser sincera, a cena Não foi mal feita não…).

Butler se junta a Fassbinder, uma cientista alemã que é líder da estação, e seu irmão com quem não tem um relacionamento muito agradável (Caim e Abel eram mais próximos, digamos), que ficou na terra para lidar com as questões políticas de ter uma estação internacional de combate à mudanças climáticas.

 

Tempestade: Planeta em Fúria : Foto

 

Assunto mais atual, impossível. Em ano de catastróficas eleições mundo afora, discussões retomadas sobre o Acordo de Paris, sua efetividade, importância e ramificações, desastres naturais que colocaram países em polvorosa, por exemplo: o território americano Porto Rico ainda sobre as consequências devastadoras da passagem do furacão Maria, a Flórida teve que ser evacuada sob a ameaça do Irma, enquanto Huston foi tomada pelo Harvey; O México sofreu no dia do aniversário do seu mais letal terremoto outro temor de terra que destruiu edificações e tomou a vida de centenas; Portugal sofreu com queimadas, assim como atualmente sofre a Califórnia, e todos temos lembranças de tsunamis e desastres afins.

Assim, um filme de ficção científica nessas premissas – um sistema espacial de efetivo controle de desastres – parece no papel mais um episódio de “Black Mirror” do que ficção hollywoodiana. Se assim fosse, o filme seria melhor do que realmente é. O problema é que o roteiro não conseguiu ser politicamente relevante a ponto de pensarmos “nossa, isso é muito black mirror”, nem muito hollywoodiano a ponto de exclamarmos “que viagem mais sem noção e divertida”. Ele não soube para que lado iria, e sofreu nisso. Acaba por ser um filme de ação com muitas imagens e cenas repletas de efeitos especiais, mas sem aquela sensação de ação que toma o espectador.

 

Tempestade: Planeta em Fúria : Foto Alexandra Maria Lara, Gerard Butler

 

Lembram de “2012”naquele vai ou não vai embarcar na arca da salvação? Ou  “O Dia Depois de Amanhã” e o olho do furação? Ou “O Inferno de Dante” e o rio de Lava? Essas sim eram cenas repletas de ação. Desta vez, tivemos apenas a perseguição do smart (dirigida pelo subutilizado ator Daniel Wu) em Hong Kong, e só. Foi um filme de catástrofe que não sentimos a aflição de estar no meio da devastação. Foi um filme de ação só de imagens, sem sentimentos, sem política, sem tomar uma posição.

Mesmo assim, tenho certeza de que o filme vai render milhares de milhões de dólares mundo afora, e mesmo assim vale o dinheiro do ingresso. Mas ele está longe de ser um bom exemplar desse gênero do cinema que tenho vergonha de tanto gostar.