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Crítica | Supergirl (2026)

Preciso começar com uma digressão, mas prometo que ela fará sentido. Vocês certamente se lembram de quando Milly Alcock foi anunciada como a nova Supergirl. Em poucos minutos, surgiu a já conhecida enxurrada de comentários depreciativos, questionamentos sobre a aparência da atriz e todo o pacote de reações que parece acompanhar quase toda adaptação da personagem.

Eu não estava aqui — e nem existiam redes sociais — quando o filme de 1984 chegou aos cinemas e fracassou nas bilheterias. Mas estava quando uma onda de ataques inundou as redes de Melissa Benoist e de outros integrantes de sua série, acusados de representar um suposto “progressismo” excessivo nas produções da CW. Os mesmos que agora também rejeitam o novo filme antes da estreia. Curioso.

Mais curioso ainda é ver alguns dos atuais detratores de Milly Alcock fingindo que estavam entusiasmados com Sasha Calle no extinto DCEU. Lembro perfeitamente de uma foto dela ao lado de Leslie Grace, então escalada para viver Batgirl, que foi recebida por uma avalanche de comentários pedindo o afastamento das duas atrizes porque estariam — cito quase literalmente — “transformando o DCEU em D-She-U”, slogan repetido à exaustão por pequenos, mas influentes, grupos misóginos da comunidade online.

Não é curioso como toda essa novela infantil e todas aquelas crises de ocasião foram convenientemente esquecidas?

Foi por isso que minha curiosidade só aumentou quando descobri que o novo filme beberia justamente em Woman of Tomorrow, quadrinho de Tom King e Bilquis Evely. Nele, Supergirl é retratada com toda a força que seu nome representa para os quadrinhos, protagonizando uma história de empatia, amadurecimento e superação feminina. E mais: trata-se de uma narrativa em que homens cruéis e mesquinhos sequer são elevados à categoria de grandes vilões. Por mais que tentem impor sua violência e parecer grandiosos, revelam-se apenas pequenos e patéticos.

Uma odisseia reescrita

Na trama, Kara Zor-El (Milly Alcock) sobreviveu ao colapso de Krypton aos 14 anos e, agora com 21, ainda lida com as marcas dessa destruição. Ela encontra Ruthye Marie Knoll (Eve Ridley), uma alienígena em busca de vingança contra o mercenário Krem (Matthias Schoenaerts), responsável pela morte de seu pai.

Inicialmente relutante em se envolver, Kara recusa o papel de algoz. Mas quando Krem atinge alguém próximo da heroína, o jogo muda. A partir daí, inicia-se uma caçada cósmica que atravessa diferentes sistemas solares, onde a ausência do sol vermelho reduz os poderes da kryptoniana enquanto ela enfrenta ameaças diversas — incluindo a fuga do caçador de recompensas Lobo (Jason Momoa) ao lado de Krypto, o supercão.

Parece uma ótima ideia, não é? Também achei. E me parece que Milly Alcock pensou o mesmo. Sua Kara é marcada por uma melancolia contida que oferece uma profundidade muito bem-vinda a uma protagonista de filmes de super-heróis. Há sempre algo acontecendo por trás do olhar, dos silêncios e dos pequenos gestos, como se a personagem carregasse um peso constante que nunca consegue abandonar.

Craig Gillespie, que já havia demonstrado talento para personagens femininas complexas em Cruella, encontra em Kara uma figura ainda mais fascinante. Arrisco dizer, inclusive, que aqui faz um trabalho superior. Temos uma jovem que perdeu tudo — família, planeta e vida — há apenas três anos. Uma alteração significativa em relação ao quadrinho, no qual Supergirl surge como uma heroína mais experiente e emocionalmente estabilizada.

Essa mudança aponta para o primeiro grande desafio da adaptação. Diferentemente da HQ, o filme precisa apresentar Kara a um público que talvez nunca tenha tido contato com a personagem. Para isso, precisa redistribuir o tempo de tela e reorganizar conflitos narrativos. É um jogo de xadrez delicado, no qual algumas peças inevitavelmente precisam ser sacrificadas.

O melhor exemplo está em Krypto. Em ambas as versões, o cachorro é envenenado, mas o peso dramático do evento é completamente diferente. Nos quadrinhos, isso rapidamente se dissolve diante do verdadeiro núcleo da história: a jornada moral de Ruthye e sua luta para não permitir que a vingança consuma sua humanidade. No filme, porém, a busca pela cura de Krypto se mantém como motor central até o fim, competindo com a batalha existencial de Ruthye.

Quando o vilão não sustenta a narrativa

Essa mudança escancara o maior problema do filme: Krem das Colinas Amarelas.

Matthias Schoenaerts entrega um antagonista sem qualquer complexidade, mais próximo de um capanga de luxo do que de um personagem capaz de sustentar o conflito dramático. Se, em Superman, o contraste entre David Corenswet e Nicholas Hoult fazia cada discurso sobre esperança e humanidade ganhar força pelo embate entre os dois, aqui Milly Alcock praticamente dança sozinha. E isso acaba enfraquecendo até mesmo o brilhante trabalho de Eve Ridley.

É sintomático que a sequência mais interessante de Ruthye repensando seus próprios valores aconteça ao lado do absolutamente desnecessário Lobo de Jason Momoa, e não diante do homem que deveria concentrar todo o conflito.

Novamente, os quadrinhos ajudam a entender a questão. Ali, Krem surge como o arquétipo do guerreiro de fantasia clássica: forte, bonito, educado e aparentemente honrado. Aos poucos, porém, a máscara cai e revela um covarde oportunista, disposto às maiores crueldades desde que alguém faça o trabalho sujo por ele. Nunca luta quando pode terceirizar a violência e está sempre explorando os mais fracos.

É essa revelação que dá sentido à jornada compartilhada entre Kara e Ruthye. Supergirl não atravessa a galáxia porque Krypto está em perigo — descobrimos depois que ele mal precisava de ajuda — nem apenas para impedir que Ruthye mate o assassino de seu pai. Ela a acompanha porque entende que um homem como Krem não merece ocupar tanto espaço na vida de alguém. Nem mesmo o espaço da vingança.

Nos quadrinhos, Krem é um nada em todos os sentidos, embora tente parecer alguma coisa. No filme, continua sendo um nada em substância, mas o roteiro insiste em tratá-lo como importante. E, ao fazer isso, sacrifica minutos preciosos que poderiam aprofundar justamente aquilo que faz Woman of Tomorrow uma história tão especial: a relação entre duas mulheres aprendendo a seguir em frente.

Kara e Ruthye

Ainda assim, a experiência funciona porque o coração da história permanece. A relação construída entre Kara e Ruthye continua sendo o verdadeiro motor emocional da narrativa. A jovem alienígena observa a heroína como uma lenda, enquanto Kara enxerga na garota uma lembrança constante de tudo aquilo que perdeu e também do que não quer perder.

Desde o início, entre polêmicas recicladas e esquecimentos convenientes, o que sempre esteve em disputa não era apenas uma personagem, mas o espaço que ela ocupa no imaginário coletivo: o de uma figura feminina que não existe para ser suavizada nem explicada em função do olhar alheio. O filme tropeça em alguns desses caminhos, mas nunca perde completamente de vista essa essência.

No fim, é por isso que a jornada de Kara e Ruthye resiste. Porque, apesar de tudo o que tenta desviá-la — dentro e fora da tela — ela ainda é, essencialmente, sobre duas mulheres atravessando o caos sem precisar se justificar por existirem nele.

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