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Extermínio: A Evolução | Crítica

Os Zumbis (!?) de Extermínio podem ser rápidos, mas talvez não sejam rápidos o bastante para escaparam da sombra dos tropos que povoaram o gênero nas décadas recentes. Em seu retorno à franquia iniciada em 2002, Danny Boyle e Alex Garland tentam participar da ressurreição de uma mitologia pós-apocalíptica que, inclusive, participaram da criação e que moldou o cinema de horror moderno. Acontece que depois de um profundo desgaste do gênero e seu retorno, existe agora o peso da própria história e uma inevitável necessidade de reinvenção.

O resultado é um filme híbrido, tenso, que flerta um pouco com alguma incoerência, mas que consegue atingir seus objetivos e apresenta um arte própria e profundamente pessoal. Um projeto que flerta com a brutalidade do horror britânico clássico, mergulha em meditações sobre luto, masculinidade e isolamento, e ainda tenta manter vivo o espírito agitado do primeiro Extermínio — aquele feito às pressas, em vídeo digital, artesanalmente nas madrugadas desertas de Londres.

Um épico zumbi entre a nostalgia e a reinvenção

Boyle volta com verve ao projeto e seu retorno é um lembrete de que a estética trêmula, feita na base da vontade e boas ideias pode ser reinventada em grande escala. Anthony Dod Mantle (diretor de fotografia) e Young Fathers (trilha sonora) entregam uma experiência sensorial e frenética, costurada com flashbacks, cortes secos e uma edição que lembra tanto Trainspotting 2 quanto um pesadelo febril.

A pretensão se torna maior e o desejo do filme, seja internamente em sua trama ou externamente nas planilhas de produção, se tornam ambivalentes. E assim, o maior problema do filme torna-se também sua maior qualidade: a polissemia, ou seja, a capacidade de ser lido de múltiplas formas. Visto de modo superficial, é mesmo difícil imaginar o que o filme quer ser. Uma sátira política? Uma peça sobre um rito de passagem infantil? É um comentário sobre Brexit, sobre a pandemia e nosso trauma geracional? É uma graphic novel apocalíptica embalada a tiros e flechas? É tudo isso e, ao mesmo tempo, quase nada com muita firmeza.

O início do filme e seu final, completamente descolados da trama que acompanhamos e na qual tão bem nos envolvemos, mostra o desejo de contar uma história ainda maior, mostrando também que “Extermínio” agora é uma franquia nos moldes do formato tradicional e contemporâneo. 

A Ilha Sagrada e o retorno à barbárie

A ambientação na Ilha Sagrada, com sua comunidade regressa aos tempos medievais, é uma das grandes sacadas do roteiro de Garland. Ali, homens treinam com arcos e flechas como se fossem arqueiros de Agincourt. Mulheres são cuidadoras, mediadoras ou memórias do que foi perdido. E Spike (Alfie Williams), o garoto que conduz a trama, é o símbolo de uma geração que herda o trauma sem entender sua origem.

Seu pai, Jamie (Aaron Taylor-Johnson), é um homem quebrado que tenta ensinar força e sua mãe, Isla (Jodie Comer), é a última conexão emocional real do garoto com a realidade. Seja por meio da doçura ou da crueza da realidade, afinal a personagem rapidamente nos é apresentada como estando adoecida, trêmula, quase espectral. Para salvá-la ou para descobrir a vida adulta, a jornada de Spike rumo ao continente é, portanto, tanto física quanto simbólica. Tematicamente, é uma travessia entre o medo herdado e a desilusão do mundo que restou, tendo como esperança apenas a certeza de a vida, mesmo em um mundo morto, continua.

Um horror que sangra, mas também hesita

Quando o filme cruza de volta para o continente, as intenções se misturam. As cenas de ação, com seus “infectados alfa” e hordas de criaturas bulbosas, funcionam como espetáculo, mas destoam da atmosfera opressiva da primeira metade. Boyle parece querer consertar a falta de adrenalina deExtermínio 2’, mas ao fazer isso, aceita o risco de enfraquecer a fábula política que vinha construindo.

A introdução de um personagem místico-cientista nos confins do Reino Unido adiciona um quê de delírio mitológico à trama, mas nunca se entrega à completa realidade mágica. Pode parecer gratuito, mas talvez seja o que o filme mais deseja: não fazer sentido literal, mas emocional enquanto cria metáforas temáticas poderosas. 

Talvez seja inevitável notar que os infectados se tornaram, aos poucos e nos últimos anos, menos assustadores e mais pitorescos. Mas o mérito de “Extermínio: A Evolução” está em não tentar superar o terror físico do primeiro filme, mas sim revisitá-lo através de outro filtro: o da dor adulta e da distopia emocional. Ainda temos uma câmera nervosa e o sentimento do cinema de guerrilha feito com Iphone (ou muitos Iphones agora) mas o foco aqui não é no pânico do fim do mundo, ma num luto expandido e febril por aquilo que se perdeu.

No fim, Boyle e Garland sabem que não estão mais filmando com câmeras leves pelas ruas desertas de Londres. Sabem que os tempos mudaram. E é por isso que entregam um filme que oscila entre o grandioso e o desajeitado, como quem tenta manter viva uma lenda cujo peso já supera seus próprios ombros. E bem, por isso mesmo,é um filme que merece ser visto com a mesma generosidade com que foi feito: como um espelho trincado de um mundo que já não conseguimos reconhecer.

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