Críticas

Lavra | Crítica

Um documentário como “Lavra” nos faz pensar em potência, mas só depois que termina. Pois antes disso, durante a exibição o sentimento é só de tristeza. Sofrimento. No fim algum último impulso de luta. Mas acho que esse último sentimento não apareça se você for mineiro.

Lavra

Começo assim, meio frustrado. E não quero com isso, colocar o sofrimento de Minas como especial, distante das dores de qualquer outro estado. É só que, com certeza, vendo as consequências dos rompimentos da barragens, em Mariana e Brumadinho, o sentimento que impera é que vai acontecer de novo.

Certamente, uma bomba relógio, o documentário diz.

E é isso.

Um tema

Quando Walter Salles produziu o curta “Quando a terra treme”, a potência foi de emoção. Já aqui, Lucas Bambozzi filma um documentário Lavra, com bases ficcionais. Que encontra as pessoas, que nem o documental, nem a ficção alcançaram. E não se enganem, não serão alcançadas tão cedo.

A potência é, nesse caso, algo ainda em suspenso. Mesmo que o filme mostre as iniciativas populares contra a mineração e o fiel retrato da sua destruíção, desde os tempos de Drummond, a Vale ainda segue impune. E sabemos que seguirão impunes muitos outros nas próximas tragédias.

Pessoas morrem. O futuro é destruído na figura da destruição do meio ambiente. Lares e memórias são enterrados. E a cartografia do caos prospera. Mentindo e fraudando sua legalidade, ocultando a existẽncia de dezenas de familias e impedindo que qualquer um possa mostrar a verdade.

Em um momento no documentário Lavra, um ator interpreta um agente da mineradora proibindo as filmagens. É caricato, não poder mostrar a paisagem. Em outro momento, num registro real, uma agente da mineradora proíbe um senhor idoso de ver onde sua “nova casa” será contruída. Pura realidade.

Pedidos de socorro

Se por um lado, a chegada das grandes mineradoras ao interior mineiro, sempre se apresenta como um sonho de progresso e trabalho. O que o documentário mostra é que a realidade é bastante diferente. Da mesma maneira que os profissionais são contratados, diante do desastre, são abandonados.

Sobretudo, com o aumento da desapropriação de terras que enterra o sustento, da violência generalizada, da prostituição, a mineração tem um custo difícil de se mensurar. Depois que um rio é declarado “morto”, apenas vemos a verdade. Ou seja, a tragédia já aconteceu. Só não vimos em tempo.

Por fim, temos sim alguma esperança. Principalmente nas palavras finais do documentário. Do chamamento á luta das causas ambientais. E nas palavras de Ailton Krenak, cujo povo foi ativamente atingido pelo impactos da mineração. É verdade que o mundo que vivemos é feito dessa destruição. Ainda assim, temos a obrigação de compreender nosso impacto. E assim trabalhar para mudar este cenário.

“Mapa é carta”. Diz o filme. Uma carta com um apelo para nós.

SINOPSE – DOCUMETÁRIO LAVRA

Camila é uma geógrafa que decidi retornar para sua terra natal. Porém, o rio de sua cidade foi contaminado pelo maior crime ambiental do Brasil. Que foi provocado por uma mineradora transnacional. Ela segue o caminho da lama que atingiu o rio. Que varreu povoados. Que tirou vidas e deixou um rastro de morte e destruição. E começa a repensar seu estilo de vida. Ela decide fazer um mapeamento dos impactos da mineração em Minas Gerais. E se envolve com ativistas e movimentos de resistência. Saindo do individualismo para a coletividade. O filme é um road movie sobre perder um mundo e tentar recuperá-lo. Sobre pertencimento e identidade. Na guerra em curso entre capitalismo e a natureza.

Bate-papo ao vivo com o diretor e equipe do filme.

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